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4. Pairar


Meu corpo arquejado 
Paira!
Suspenso...

Agaixa-se à mira do teu olhar
Esse vislumbre  desvairado
vem anunciar o nosso fim
Já só Restam vestigios - sombras
 -Pedaços de mim
Sem ter mais como me humilhar
Transcendi novamente o risco
De uma vez mais no amor fracassar
 
Meu corpo quebrado
Paira!
Suspenso ...

Nos destroços da memória
A alma rememora a gloria
Dos nossos momentos –
-Agora esquecidos
Mas outrora deliciosamente atrevidos

Meu corpo amargurado
Paira!
Suspenso...

Num contrassenso -
-Num frenético vaivém
A serenar no desalento
Sou uma criança
A bailar ao ritmo da melodia dos risos
Nas margens da lagoa azul e verde
Adornada pelas pregas de narcisos

Meu corpo maravilhado
Paira!
Suspenso...

Pela brisa suave
Que acaricia os caracóis cor de fogo
Deslumbro-me ante tanta beleza
Quero sim-
Gozar a eternidade deste jogo
Quero-me a mim!
Unida no deslumbre desta pureza

Meu corpo flamejado
Paira!
Suspenso...

Reencarna à essência adulta
Nas cinzas do amor enterrado
Não consigo desistir
Deste anseio do sentimento perdido
Insisto em insisitir!
Na procura do teu olhar
Aquele dislumbre temido
Que me corta e recorta e torna a cortar-
-Sem piedade
Divina Santa...esta Saudade!

Meu corpo fraquejado
Paira!
Suspenso...

Nas lágrimas de fuligem
Que escorrem pelo meu rosto queimado
Cega - não deixo  rasto
Vagueio na vertigem
Das amarras deste corpo cremado

Leve, cheia de ternura
Sinto uma mão-
  -pequenina -
A agarrar a minha
Que delicia esta sensação -
-Que me acarinha
Avisto o esvoaçar dos cachos cor de fogo
Escuto a serenata dos risos
A candura nos olhos cor de mar
Quanto amor cabe num simples olhar
- Inspiro!
Deleito-me no doce aroma dos narcisos
- Expiro!
Deleito-me na elação de poder ser e estar
Pairar!
suspensa...
Sem mais pensar...
... 
E sei que finalmente chegou a hora de irmos brincar! 
 
Suz   
Intercidades, Porto/Lisboa
Setembro, 2010
Sherwood, Nottingham
Julho, 2017

©2017 Susanne Marie Ramos França

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